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ÉTICA CIDADÃ NO PROCESSO EDUCATIVO
17.09.2020



                                                                                        Luiz Carlos dos Santos 


Entende-se por educar para ética-cidadã o poder de se colocar no lugar de outra pessoa e vivenciar o sentimento que aquela outra pessoa tem. Educar para ética é, na contemporaneidade, um dos grandes desafios no processo educacional, na medida em que o currículo que formou significativa parte dos docentes no século passado esteve influenciado substancialmente por uma lógica cartesiana que enfatizava a dimensão conceitual e praticamente negava observância dos conteúdos atitudinais. Atitude e sensibilidade e atitude de ler as contradições da cidade explícitas nos textos não verbais no cotidiano é condição sine que non para a reflexão sobre a moral. Frise-se que, somente os conteúdos conceituais não dão conta da (re) invenção das relações sociais. Urge aguçar o senso moral dos alunos por meio do exercício da alteridade, a fim de que os mesmos possam ler a realidade com lentes sensíveis os traços de humanidade que ainda instam na sociedade.


Assinale-se que a sociedade hodierna se debruça sobre a urgente necessidade de ancorar os valores éticos nas relações sociais, especialmente o Brasil que vive uma de suas maiores crises políticas da história republicana em função da fragilidade deste elemento em suas práticas pseudo-democráticas.


Buscando-se Aristóteles, a essência da ética era a felicidade. Tal definição encontra-se eco na (re) leitura de Chalita do clássico Ética a Nicômacos (ARISTÓTELES, 2001, p. 36), “Nascemos para a felicidade. Percorremos a felicidade e muitas vezes nos afastamos completamente dela por não conhecer o caminho para encontrá-la. A felicidade se encontra em cada indivíduo e ao mesmo tempo no convívio dos indivíduos. A felicidade é caminho e é meta.”


Sob o prisma epistemológico, poder-se-ia caracterizar a ética como sendo a morada do homem. Os fundamentos da construção, as vigas, os pilares, as colunas caracterizariam o código de ética. Segundo Susin (1996, p. 21), “A ética, como morada humana, não é algo pronto e construído de uma só vez. O ser humano está sempre tornando habitável a casa que construiu para si. Ético significa, portanto, tudo aquilo que ajuda a tornar melhor o ambiente para que seja uma moradia saudável – materialmente sustentável, psicologicamente integrada e espiritualmente fecunda.”


Entretanto, entende-se que um código de ética deva estar atento às constantes e contínuas metamorfoses da dinâmica social; sempre descerrado a reinvenções que possam acolher as transformações sem perder a dimensão do bem-comum. Parafraseando Flores (2007), necessita ser o retrato das expectativas do todo; a ser uma semente de propulsão que impulsione o indivíduo a expurgar o individualismo e partir para caminhadas nos terrenos da solidariedade, e, sobretudo, da fraternidade.


Infere-se que ética é a capacidade de se enxergar no outro e, nesta perspectiva, tentar garantir aos cidadãos as mesmas expectativas que se possui para a vida. Ah! Longe de se pensar em um receituário do viver bem; é na verdade uma horizontalização do olhar, que perde a dimensão vertical, da busca pela ascendência olhando para os demais membros da sociedade de cima para baixo, para orientar o enxergar na direção dos que estão ao redor, percebendo cada um na sua unidade e reconhecendo e respeitando a diversidade.


Sublinhe-se que a reorientação deste olhar não se dá unicamente pela leitura de uma cartilha, nem tampouco pela habilidade oratória de um professor. Ética é uma lição que se ensina e se aprende pelos exemplos; somente os exemplos são capazes de alfabetizar o cidadão para uma vida alicerçada em valores tão relevantes para a arte do viver coletivamente. 


Ainda de acordo com Flores (2007), o elemento importantíssimo para a busca da felicidade no plano coletivo é se perceber como parte de uma sociedade; é entender-se como cidadão, não apenas no sentido estrito do termo, mas o entender como sendo o indivíduo que possui a sensação de pertencimento ao grupo social, e sentir-se corresponsável pela condução da história individual e coletiva.


Às vezes, os professores não se dão conta de que estão educando para atender às expectativas do mercado, doutrinando inclusive o lema dos mosqueteiros às avessas; um por todos, e todos por mim, tatuando o ideal da competitividade/concorrência, ao invés de incentivar a cooperação e a empatia.


Conforme Santos (2005), o modelo de exclusão social, incluindo-se o Brasil, é tão perverso, tão agressivo, que as camadas mais desprestigiadas economicamente sequer reconhecem no patrimônio coletivo da cidade suas possibilidades de integração. Tal qual um apartheid, notam-se barreiras invisíveis (ou às vezes muito bem visíveis) que impedem o cidadão de exercer o direito fundamental de ir e vir.


Ante o exposto, educar converte-se na missão desafiadora e instigante de fomentar a cidadania, e um dos caminhos para este trabalho é criar a cultura cidadã por meio da inserção do cidadão na cidade. Saliente-se - esta inserção não e somente está na cidade, é sentir-se parte dela e reconhecer-se no mosaico que representa a identidade do lugar.


Enfim, assinale-se que a cidadania não é um presente físico nem metafísico, a cidadania é uma conquista, é um processo, uma reivindicação. Ela é a corporificação de princípios éticos na medida em que estreita os laços de solidariedade e garante visibilidade social aos portadores. Cabe lembrar que a educação deve ser fundamentada em princípios de alteridade, de resgate do componente ético, o qual, de maneira mais sutil ou evidente habita em cada um dos seres humanos. Dito de outro modo, é a concretude da expectativa cidadã de tecer novamente os tecidos esganiçados da malha social, fazendo com que a mesma seja um cobertor que não necessite descobrir os pés para cobrir a cabeça ou vice-versa.


                                                           REFERÊNCIAS


ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 4. ed. Brasília: UnB, 2001.


FLORES, Rafael Vilar. Ética Plena. São Paulo: Alhures, 2007.


SANTOS, Juliana Anacleto dos. Desigualdade Social e o Conceito de Gênero. Belo Horizonte: Amanhecer, 2005.


SUSIN, Walter Nakamura. Ética como morada humana. Rio de Janeiro: Gravatá, 1996